Androgênios na pós Menopausa
26 set. de 2017
A Associação Brasileira de Climatério (SOBRAC), em seu Consenso mais recente em 2014, também reserva a terapêutica androgênica para a ocorrência de queixas sexuais, sem mencionar a necessidade da presença de uma SIA.6
- Efeitos androgênios sobre a densidade mineral óssea
Na pós-menopausa, os baixos níveis de androgênios séricos se associam à redução de massa óssea e ao risco aumentado de fraturas.7 Este ganho de massa óssea observado à exposição androgênica se faz tanto em função do estímulo à diferenciação osteoblástica, síntese da matriz proteica e da mineralização, assim como pela supressão da interleucina-6, promovendo a inibição da gênese osteoclástica. Os andrógenos têm ação reconhecida sobre o metabolismo ósseo, com efeito sinérgico quando associado ao estrogênio, porém não há indicação regulatória para o uso de androgênio na prevenção e no tratamento da baixa DMO.
- Efeitos sobre a composição corporal
Os níveis reduzidos de T e de seus precursores no período pós menopausal podem contribuir de maneira significativa, para a diminuição da massa magra, a partir da redução progressiva do metabolismo basal e o gasto energético.8 Além disso, a diminuição de tecido magro reduz as necessidades energéticas em repouso, e isso, associado à diminuição da atividade física sem uma proporcional redução na ingestão calórica, propicia o acúmulo de gordura corporal.9
- Efeitos sobre a função sexual feminina
Na atualidade, a deficiência androgênica tem sido considerada um dos componentes etiopatogênicos significativos dentre os que interferem na sexualidade feminina. No universo que representa a função sexual, não se devem desconsiderar os diferentes fatores envolvidos, a exemplo das influências socioculturais, relações interpessoais, condições biológicas e principalmente psicológicas.
- Efeitos sobre a qualidade de vida
Há comprovado efeito da terapia androgênica (TA) no humor, no bem-estar geral, na energia e na diminuição dos graus de depressão. Existem evidências clínicas que apoiam o uso de andrógenos nas mulheres que apresentam alterações no bem-estar geral, na energia, no humor, fadiga e nos quadros de depressão que sejam decorrentes de insuficiência androgênica feminina.11
A T administrada por via oral tem absorção intestinal e passa por metabolização e inativação parcial hepática antes de atingir os órgãos-alvo. A forma micronizada oral não é bem absorvida e resulta em níveis plasmáticos insuficientes para manifestar efeito terapêutico.
Vale ressaltar que, não existem dados de segurança sobre o uso da TA a longo prazo. As mesmas considerações e contraindicações para a terapia estrogênica (TE) são válidas e aplicáveis para a TA.
Referências bibliográficas
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- Braunstein GD, Sundwall DA, Katz M et al. Safety and efficacy of a testosterone patch for the treatment of hypoactive sexual desire disorder in surgically menopausal women: A randomized, placebo-controlled trial. Arch Intern Med. 2005;165(14):1582-9.Os androgênios declinam lenta e progressivamente ao longo do período reprodutivo feminino, e esse decréscimo é maior no período pós-menopausa. A existência de uma síndrome da insuficiência androgênica na mulher (SIA) tem despertado inúmeras discussões e controvérsias. O estado de deficiência androgênica se manifesta insidiosamente por diminuição da função sexual, do bem-estar e de energia, por fadiga, emagrecimento, instabilidade vasomotora, alterações na composição corporal e perda de massa óssea. O diagnóstico da SIA é essencialmente clínico, não havendo evidências atuais da utilidade de realização de exames laboratoriais para sua comprovação.