Doença Trofoblástica Gestacional: Uma história para ser contada

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Doença Trofoblástica Gestacional: Uma história para ser contada

13 set. de 2017

O interesse pelas doenças do trofoblasto no Brasil foi aguçado após os bons resultados obtidos pelos pesquisadores Li e Hertz com o uso da quimioterapia em coriocarcinoma como no caso da paciente Ethel Langoria ocorrido em agosto de 1956 e com excelente resultado terapêutico. Vislumbrava-se a possibilidade da cura de uma patologia muito grave e com desfecho sempre fatal.

No Brasil, até então, eram relatados casos clínicos tentando despertar a atenção da patologia existente e ainda sem solução. Vejamos: Martiniano Fernandes e colaboradores publicaram em 1957 um trabalho sobre “Mola Hidatiforme: alguns dos seus problemas histopatológicos e clínicos”. Outro trabalho publicado foi o de Pellanda EB intitulado “Diagnóstico e Tratamento da Mola Hidatiforme”.

Com a criação em novembro de 1959 da 33ª. Enfermaria da Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro, sob a chefia do Professor Jorge de Rezende, o Professor Paulo Belfort idealizou a instituição do primeiro Centro de Referência para o tratamento normatizado das doenças do Trofoblasto.

Coincidentemente, neste mesmo ano, foi realizada a primeira reunião sobre Tumores Trofoblásticos Gestacionais sob os auspícios da Academia de Ciências de Nova York que resultou na criação, anos mais tarde, da ISSTD (International Society for the Study of Trophoblastic Disease). Nomes que se destacaram no incipiente CR da Santa Casa: José Maria Barcellos (Patologia), Simão Coslovsky (Endocrinologia), Ericsson Linhares (Laboratório de hormônios), Euderson Kang Tourinho (Ultrassonografia) e Paulo Belfort (Obstetrícia). Todos eles deram suas contribuições para a normatização do diagnóstico e tratamento dos tumores do trofoblasto.

 Foi em 1968 a primeira participação internacional deste CR pela inclusão do capítulo intitulado “Coriomas. Sobre uma experiência de 40 casos” no livro em homenagem ao Professor e Doutor Pedro da Cunha em Lisboa, Portugal.

Seguindo a tendência mundial, especialmente nos EE. UU. e Reino Unido, o Professor Carlos Aristides Maltez, em 1968, criou o Registro de Tumores Coriais com o objetivo de registrar todos os casos ocorridos na Bahia.

O segundo Centro de Referência foi criado em Curitiba, Paraná em 1965 pelo Dr. Bruno Maurizio Grillo e Dr. Lívio Antônio Gulin, sendo denominado Núcleo de Atendimento às Pacientes portadoras de Tumores Trofoblásticos Gestacional. Está sediado na Maternidade do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (Serviço Universitário de Graduação e Pós-graduação).

Surgiu a seguir, em 1970, o CR de Goiânia implantado pelo Dr. Mauricio Viggiano no Hospital Geral de Goiânia até 1991 e, depois no Hospital Materno Infantil de Goiânia até 2004. Atualmente funciona na Maternidade Escola da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás. Interessante é que Viggiano conhecera Belfort em 1967 em Brasília e soube do desenvolvimento do CR da Santa Casa do Rio de Janeiro. Fundou então o CR de Goiânia.

Em 1985 foi criado o Centro de referência de Fortaleza pelo Professor Dr. Francisco Chagas Oliveira: incentivado por Mauricio Viggiano no final da década de 60,  durante o Congresso Brasileiro de Ginecologia e Obstetrícia realizado em Fortaleza, Ceará. Quando foi nomeado Diretor da Maternidade-Escola Assis Chateaubriand,  instituiu  de  forma  oficial  o  Centro de Referência. Cabe salientar que se tornou vanguardeiro na pesquisa e tratamento desta patologia.

O Professor Dr. José Mauro Madi, discípulo de Paulo Belfort e chefe de equipe da 33ª. Enfermaria da Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro transferiu-se em 1978 para Caxias do Sul, Rio Grande do Sul. Tornou-se Professor Titular de Ginecologia e Obstetrícia da Universidade onde fundou em 1979 o Centro de Referência de NTG. Entre inúmeras pesquisas, destaca-se “Prognóstico da Mola Hidatiforme pela Citometria Digital”.

Em 1972, Chagas de Oliveira conheceu Fauzer Simão Abrão, já renomado cancerologista e cirurgião do Hospital A.C.Camargo de São Paulo. Passou então a integrar o grupo de estudiosos da NTG. Estabeleceu o CR de São Paulo atendendo especialmente pacientes de alto risco. Sua tese de mestrado versou sobre “NTG Metastática, tratamento poli quimioterápico com alternância de drogas”.

O Centro de Referência de Santos em São Paulo foi criado em 1987 pelo Obstetra Dr. Carlos Nicola Abamonte e pelo Oncologista Dr. Eduardo Silveira. Funciona no Hospital Guilherme Alvaro ligado à Faculdade de Medicina Unilus (Centro Universitário Lusíada). A quimioterapia é realizada no Hospital da Beneficência Portuguesa.

Em 1985 por iniciativa do Professor Dr. Pedro Luiz Costa da Maternidade Mario Totta, foi criado o Centro de Referência de Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Este Centro vem funcionando com invejável organização e alto índice de eficiência após as Dras. Elza Hartmann Uberti e Maria do Carmo Fajardo assumirem sua direção. Trata-se de equipe que trabalha no ambulatório especializado do Hospital Santa Clara. É um centro que irradia eficiência e interesse imensurável pelas pacientes lá tratadas.

Em 1985 foi criado o Centro de Referencia de Brasília pela Dra. Rosali Rulli Costa. Ha muitos anos vem sendo dirigido pelo Prof. Dr. Paulo Kalume e funciona na Unidade de GO do Hospital Regional da Asa Norte (HRAM).

Em 1990 a Professora Marilza Vieira Cunha Rudge criou o Centro de Referência da Faculdade de Medicina de Botucatu, São Paulo. Funciona no Hospital de Clínicas sob a orientação da Professora Dra. Izildinha Maestá. Além da atividade assistencial, vincula extensão, ensino e pesquisa em DTG/NTG com alunos de iniciação científica, mestrado e doutorado.

Cabe mencionar os Centros de Referência tais como: Hospital de Clínicas da USP sob a orientação do Prof. Dr. Koji Fushida; na Escola Paulista de Medicina sob a coordenação da Dra. Sue Yasaki Sun e em Ribeirão preto sob a coordenação do Dr. Jurandyr Moreira de Andrade.

Os Centros de Referência constituem a pedra angular do atendimento e estímulo referentes à doença multiplicaram-se nos últimos anos graças ao entusiasmo sobre a matéria. Hoje temos 39 Centros de Referência espalhados pelo nosso imenso país.
Constam na História da DTG no Brasil os Encontros Nacionais e Congressos brasileiros e sul-americanos e um Congresso mundial realizado no Rio de Janeiro em 1986.

Finalmente, em 2016, foi criada a Comissão Nacional Especializada em Doença Trofoblástica Gestacional da FEBRASGO, sob a presidência do Dr. Antonio Braga, que sucedeu ao Dr. Paulo Belfort no Centro de Referência do Rio de Janeiro, mantendo sua chama e levando seu trabalho adiante.

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

  1. BELFORT P. BARCELLOS JM. CASTELLAR D. A INCOMUM LOCALIZAÇÃO CERVICAL DO CORIOCARCINOMA. GINECOL OBSTET.1965, 116.57-61.
  2. BELFORT P. ET COL. A HISTORIA DA NEOPLASIA TROFOBLÁSTICA GESTACIONAL NO BRASIL. 2010. VOL. 38 N8. 381-387.
  3. FERNANDES M. MARQUES C. MOLA HIDATIFORME. ALGUNS PROBLEMAS HISTOPATOLÓGICOS E CLÍNICOS. REVISTA GIN E OBST. 1957; 741-56.
  4. PELLANDA EB. DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO PRECOCES DA MOLA HIDATIFORME. GINECOL OBSTET.1959.104.31-40.
  5. MUKHERJEE. O IMPERADOR DE TODOS OS MALES: UMA BIOGRAFIA DO CÂNCER,. COMPANHIA DAS LETRAS. 2012.167-169.

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